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quarta-feira, 24 de maio de 2017

10 anos! Porra, 10 anos?!

Estávamos em 2007. Maio. Eu estava grande e enorme. Os meus pés impediam qualquer espécie de sapatos. Andava apenas com umas chinelas azuis que adorava. Já não via a minha "rapachola" fazia meses. Nem eu, nem ninguém!Estava inchada, cara, mãos e, especialmente, os pés!Muito inchada e muito gorda. Talvez os pastéis de nata que emborcava todos os dias tivessem alguma culpa. Ou os cigarros que fumava de forma sorrateira, para evitar os olhares de desaprovação. A data prevista do parto era só para Junho. E eu até preferia assim! Ia ter férias e podia descansar antes da rebaldaria que a vida ia levar com a tua chegada. Era dia 23. Seriam umas 15:30. Agarrei numa pipa de 5 litros de vinho para a mudar de sítio e rebentaram-se-me as águas. O quê?! Agora?? Mas eu queria as férias! Ora... Mas amanhã é a festa de despedida e o almoço é cozido à portuguesa. Que péssimo timming! Encostei-me à janela, e ouvia o stress das minhas colegas de trabalho. Quis fumar um cigarro enquanto os nervos se apoderavam de mim. Levaram-me a casa mesmo contrariando a minha vontade de ir a conduzir. Chamei o pai, a minha mãe e acabei o saco. Já era quase final de tarde quando dei entrada no Hospital. Estava cheio e fiquei ainda um par de horas na sala de espera cá fora. Continuava a perder liquido amniótico e as minhas calças faziam "chlop chlop" quando caminhava. Toda eu tremia, por estar ali, numa situação que sabia que não tinha volta, por esperar, pelas pessoas à minha volta. Voltei a fumar um cigarro cá fora. Antes de me levarem para a noite mais comprida da minha vida. Começam os toques, os ecg's, os fios ligados a medirem tudo. Começa a fome a apertar. E não me dão de comer. E as horas passam e nada. Criança não dá sinal. Passam mais horas, mexo-me e remexo-me e saltam os fios todos. Chamo a enfermeira porque quero fazer xixi e não me deixam levantar. Não durmo. Tenho fome. Dormito um pouco. Chega a manhã. Muda a equipa e voltam a enfiar-me as mãos pelas entranhas acima. Continuo com fome e dão-me uma compressa para molhar os lábios. Era dia de cozido e eu ali. Deitada, sem me mexer e com muita fome. Ah, eu com fome! Na hora de almoço entregam-me um sugo de morango. Um sugo! Eu desfalecia de fome. Pensava nos chouriços, nas couves, no feijão enquanto sorvava o pequeno sugo. Mais umas mãos que se enfiavam em mim até que começam as contracções. E à fome junta-se as dores. Chega a hora de me tentar enrolar para me darem a epidural. Que faz pouco ou nenhum efeito. Continuavam a passar as horas. E as dores aumentavam. Muito. A porra da anestesia não fazia nada. Já era tarde avançada, sentam-me na cama e metem-me toda escancarada. Tenho dores viscerais. Grito que nem uma vaca a parir. Mas eu estou a parir caraças! Médicos nem vê-los. Faço força e força, mas não a tenho. Só comi um sugo. Penso quem é que pode dizer que este dia é o mais feliz da sua vida?! Depois de um grito que se ouviu na maternidade inteira lá chegam os médicos. O puto não sai. Lá lhe metem a ventosa para ajudar, depois de me abrirem sem piedade. Nasce às 17:37, do dia 24 o meu pequeno rato. Conto-lhe os dedos, oiço o chorar enquanto o limpam e chamam o pai. Será que agora podem dar-me comida?! Naaaaaaaaa, ainda tem de ser cosida. E tentar dar a mama, que no espaço de meia hora tinha triplicado de tamanho e pareciam duas bolas a tocar-me nos queixos. Eu quero comer porra! Lembro-me das lágrimas subirem-me aos olhos a primeira vez que te pus na mama, não sei se de emoção ou só de dores. Lembro-me de olhar-te e já teres a língua de fora, vicio que mantens até hoje. Lembro-me de não me deixares dormir e eu muitas vezes pensar em apertar-te o pescoço. De sentir as minhas mamas encherem e pingarem quando começavas a chorar e eu não estar perto de ti. Não me lembro da tua primeira palavra, nem dessas gracinhas que as mães devem se lembrar. Lembro-me da tua primeira gargalhada e de me ter rido com ela. Lembro-me dos teus primeiros dias de escola, nas três que já passaste. Revejo os cabelos brancos que ganhei estes anos, especialmente nas duas vezes que estive no hospital contigo. O teu pai esteve muitas mais vezes, mas ele é hipocondríaco e tem "issues". Cresceste, jogas à bola mas o que gostas mesmo é de tenis. Não estás um homem porque és um puto mimado. Mas estás grande! És muito inteligente mas ainda tens de aprender a lidar com a frustração. E com a raiva. Eu tenho de aceitar que gostas de peixe cozido. Blhac! E a ter mais calma mesmo quando levas a minha paciência aos limites. Gosto de ti, todos os dias. Há 10 anos e 36 semanas. Vou gostar de ti para sempre, na única certeza que tenho para além da morte. Parabéns, meu pequeno gordo!

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